Às vezes, acreditamos que as redes sociais são feitas de algoritmos, tendências e telas. Mas, basta parar um pouco para descobrir que elas são feitas, acima de tudo, de pessoas. De histórias a serem contadas. De perguntas que aguardam uma resposta. De solidões que anseiam por companhia.
Com essa certeza como ponto de partida, foi realizado em Florencio Varela (Buenos Aires, Argentina) o Encontro Internacional de Missionários Digitais e Comunicadores. Um espaço que foi muito mais do que um programa de atividades. Foi um convite para olhar para o mundo digital não como um território alheio à fé, mas como um dos lugares onde hoje se lança, em grande parte, a missão da Igreja.
O mundo digital como território de missão
Vivemos em uma época curiosa. Nunca foi tão fácil nos comunicarmos e, no entanto, nunca pareceu tão difícil nos encontrarmos de verdade. Temos milhares de contatos e, às vezes, pouquíssimas conversas. Compartilhamos publicações a uma velocidade impressionante, mas continuamos com fome de palavras que toquem nossa alma.
Foi assim que este encontro teve um quê de profecia.
Durante três dias, comunicadores, evangelizadores e missionários digitais de diferentes países das Américas se reuniram para refletir sobre questões que vão muito além da tecnologia. Como anunciar o Evangelho em uma cultura dominada por algoritmos? Como construir pontes em meio a tanta polarização? Como comunicar esperança em um mundo saturado de informações, opiniões e ruídos?
As respostas não chegaram como receitas. Chegaram como intuições.

Mons. Lucio Ruiz, secretário do Dicastério para a Comunicação da Santa Sé, convidou a olhar para o mundo digital não como mais uma ferramenta, mas como um verdadeiro território de missão. Uma afirmação simples, mas capaz de mudar a perspectiva. Pois se as redes são território de missão, então deixam de ser apenas espaços para divulgar mensagens e se tornam lugares onde Deus já está agindo, esperando que alguém O descubra.
Em diversas conferências e espaços de reflexão, surgiu uma mesma certeza: a Igreja não é chamada a conquistar as redes sociais, mas a habitá-las. Não a impor mais uma voz entre tantas outras, mas a oferecer presença, escuta e humanidade.
Essa foi uma das palavras que mais se respirou durante todo o encontro: presença. Presença para ouvir antes de responder. Presença para acompanhar, antes de julgar. Presença para lembrar que por trás de cada comentário, cada mensagem privada e cada postagem há uma pessoa concreta, com feridas, buscas, perguntas e esperanças.


“Samaritanear” nas redes sociais
O Pe. Santiago Ferrero, Diretor Nacional do Movimento de Schoenstatt na Argentina, utilizou uma imagem que ficou gravada no coração de muitos: “Samaritanear nas redes sociais”. Uma expressão simples e profundamente evangélica. Pois o Bom Samaritano não perguntou quem estava certo nem verificou antecedentes antes de parar. Simplesmente viu alguém ferido à beira da estrada e se aproximou.
Talvez essa seja também a missão digital do nosso tempo. Aproximar-se. Em uma cultura que costuma medir o valor das pessoas por métricas, números ou “Followers” (seguidores), aproximar-se. Em uma sociedade onde abundam as opiniões, mas escasseia a escuta, aproximar-se.
Nesse espírito de unidade, também estiveram presentes representantes da comunicação institucional do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam). Óscar Elizalde Prada, diretor de comunicação do Celam e consultor de comunicação da Santa Sé, apresentou referências inspiradoras de comunicação, próprias do contexto latino-americano, destacando características e aprendizados que podem orientar a missão comunicativa da Igreja. Em sua fala, incentivou o Movimento de Schoenstatt a ampliar sua presença nos meios de comunicação, contribuindo com o envio de notícias e conteúdos que expressem a vida e a missão do Movimento.

Somos parte de uma mesma missão
Entre uma conversa e outra, entre mates compartilhados e conversas espontâneas, foi surgindo a sensação de que a verdadeira riqueza do encontro não estava apenas nos conteúdos recebidos. Estava na experiência de se reconhecer parte de uma mesma missão. Porque ninguém evangeliza sozinho.
Na prática, isso significa, também, ter comunicadores bem formados. Soledad Oliva Carreras, especialista em comunicação digital e ex-coordenadora do Departamento de Comunicação de Schoenstatt Argentina, observou que muitos realizam seu apostolado com grande dedicação, mas sem formação específica. Por isso, considera que “capacitação e encontro são talvez as duas grandes necessidades de quem trabalha na comunicação”. Segundo ela, momentos como esse permitem voltar para a missão “com novas ideias, entusiasmo renovado e mais recursos para comunicar melhor”.



Enviados desde o centro
A celebração de Corpus Christi marcou o ponto final e, ao mesmo tempo, o ponto de partida. Diante de Jesus Eucarístico, uma verdade simples se revelava com clareza: antes de comunicar Cristo, somos chamados a encontrá-Lo. Tudo o mais vem depois.
As estratégias mudam. As plataformas nascem e desaparecem. Os algoritmos se modificam. As linguagens evoluem. Mas o coração da missão permanece intacto.
Precisamos continuar levando uma palavra de esperança aonde quer que haja alguém disposto a ouvi-la. Também por trás de uma tela.
Também nesse continente digital que às vezes parece tão distante e que, no entanto, é habitado por milhões de pessoas que continuam buscando o mesmo que o coração humano sempre buscou: sentido, verdade, amor e encontro.
Sim, também nas redes, encontramos terra sagrada.


