Em meio a um mundo cada vez mais marcado pelo avanço da inteligência artificial, surgem questões profundas sobre seu impacto nas pessoas, nos relacionamentos e na vida de fé. Estamos diante de uma ameaça ou de uma oportunidade?
O engenheiro civil Andrés Vergara González, do Chile, a partir de sua experiência no desenvolvimento e na aplicação dessas tecnologias, oferece uma visão clara e instigante: a IA não está destinada a substituir o ser humano, mas a potencializá-lo. Mas seu verdadeiro impacto dependerá de como a integrarmos em nossa vida pessoal, comunitária e espiritual.
Andrés é cofundador e CEO da MAindset e não é um novato no mundo digital. Com 25 anos de experiência em análise de dados, hoje ele lidera uma consultoria que ajuda empresas a olharem para a IA a partir de uma perspectiva humana. Membro ativo de Schoenstatt no Chile, Andrés nos convida, neste início de ano, a discernir como essa tecnologia pode potencializar nossa missão.
A partir da espiritualidade de Schoenstatt, esta conversa nos convida a discernir: como usar a tecnologia sem perder o essencial – o vínculo, a interioridade e a liberdade interior – em uma época que avança cada vez mais rápido?

A inteligência artificial está cada vez mais presente em nossas vidas. Com base na sua experiência, como essa tecnologia pode realmente estar a serviço do ser humano?
A chave está em uma palavra: expandir. Não substituir. Comecei há 25 anos trabalhando com análise de dados e inteligência artificial em grandes empresas, e o que tenho visto repetidamente é que a tecnologia funciona quando amplifica o que uma pessoa já é. Na MAindset, a consultoria que fundamos para ajudar as organizações a enxergarem de forma diferente o tema da IA, falamos do “indivíduo aumentado”: uma pessoa que, com a ajuda da Inteligência Artificial, pode fazer melhor aquilo que realmente faz sentido. Um médico que diagnostica com mais precisão pode salvar muitas vidas. Um professor que consegue personalizar seu ensino pode mudar o futuro de muitos jovens. Um gerente que deixa de perder 20 horas por mês em tarefas mecânicas e pode dedicar esse tempo para liderar pessoas, entender suas preocupações e ajudá-las a fazer a transição de tarefas mecânicas e repetitivas para tarefas mais significativas. A IA se coloca a serviço da pessoa quando a liberta para o que é essencialmente humano: pensar, decidir, vincular-se, criar. O problema surge quando invertemos a equação, quando a pessoa se coloca a serviço da ferramenta.
Schoenstatt fala muito sobre a cultura dos vínculos. Como você acha que a inteligência artificial pode fortalecer – e não enfraquecer – nossas relações humanas e comunitárias?
Olha, Schoenstatt nos ensina que o vínculo é que cura e transforma. Não a informação, não a eficiência, mas o vínculo. E a IA, quando bem utilizada, pode ser uma aliada desse vínculo justamente porque te devolve tempo e atenção. Vou te dar um exemplo concreto: em um projeto que estamos realizando com uma grande empresa, automatizamos relatórios que levavam dias inteiros de trabalho mecânico para a equipe. O que aconteceu? Essas pessoas agora têm espaço para conversar com seus clientes, para pensarem juntas, para se conectarem de verdade. A IA não gera vínculos, isso é algo insubstituivelmente humano. Mas ela pode remover os obstáculos que nos impedem de cultivá-los. Agora, isso requer intencionalidade. Se eu usar o tempo que a IA me libera para ficar diante de mais telas, perdi a oportunidade. Se eu o utilizar para estar mais presente com meus filhos, com minha comunidade, com minha equipe, aí a tecnologia serviu ao vínculo.
Existe o temor de que a tecnologia aumente o isolamento. Que desafios a inteligência artificial coloca para a qualidade dos nossos vínculos e da vida em comunidade?
O desafio mais sério não é aquele que as pessoas imaginam. Não é o fato de um robô substituir você no trabalho. O verdadeiro desafio é a ilusão de companhia. Hoje já existem milhões de pessoas conversando com chatbots como se fossem amigos, como se fossem conselheiros. E a tecnologia é boa o suficiente para que você se sinta confortável, até mesmo acolhido. Mas é um vínculo sem risco, sem vulnerabilidade, sem o outro real que me desafia. Um dos principais vieses da IA é que ela é condescendente. Ela tende a dizer o que você quer ouvir, e isso normalmente não ajuda. Algo semelhante acontece com os algoritmos das redes sociais, que mostram reels e stories que coincidem com a sua opinião… mas que pouco o desafiam, afastando-o daqueles que pensam diferente. E isso, a partir de Schoenstatt, vemos claramente: o vínculo autêntico implica entrega, atrito, sacrifício. Não há atalho tecnológico para isso. O outro desafio é a fragmentação da atenção. Tenho quatro filhos e vejo como a tecnologia compete constantemente pela atenção deles. Não é um problema específico da IA, mas a IA o intensifica porque torna o conteúdo digital cada vez mais personalizado, mais atraente, mais difícil de largar. Aí, a comunidade tem um papel fundamental como contrapeso; precisamos de espaços onde possamos nos olhar nos olhos.
O desenvolvimento da IA também levanta questões éticas. Quais você acha que são, atualmente, os principais riscos ou alertas que devemos ter em mente?
O primeiro risco é a concentração de poder. Os modelos de IA mais avançados são desenvolvidos em dois polos: por um lado, são desenvolvidos e financiados por algumas gigantescas empresas privadas nos Estados Unidos: OpenAI, Alphabet, Anthropic, Nvidia, Meta, Amazon, Microsoft, x.ai; e, por outro lado, pela China, com modelos de código aberto desenvolvidos pela Deepseek, Alibaba, Xiaomi, entre outras. Isso significa que decisões que afetam milhões de pessoas — quais informações você vê, como seu crédito é avaliado, quais conteúdos são filtrados — são tomadas por um grupo muito restrito de pessoas com seus próprios vieses e incentivos comerciais.
O segundo risco é a erosão da verdade. A IA generativa pode criar textos, imagens e vídeos indistinguíveis do real. Isso não é futuro, é o presente. E em um mundo onde já é difícil discernir o que é verdadeiro, isso é como jogar gasolina no fogo. Os agentes podem produzir milhares de vezes mais texto do que as pessoas; como vamos navegar num mundo onde não sabemos quem é o autor de quê e, sobretudo, num mundo onde as pérolas se escondem em milhões de comentários sem valor? É um grande desafio da superinformação.
O terceiro risco, menos visível, mas igualmente profundo, é a desresponsabilização. Quando você delega decisões a um algoritmo, dilui-se quem é o responsável. “Foi o sistema que decidiu” é a nova forma de lavar as mãos. E, como cristãos, sabemos que liberdade e responsabilidade são inseparáveis. Não podemos delegar nossa consciência a uma máquina.
A fé cristã nos convida a buscar a verdade e a discernir. A inteligência artificial também pode contribuir para o crescimento espiritual ou para a formação na fé?
Sim, mas como ferramenta, não como fonte. Eu, pessoalmente, já usei a IA para aprofundar textos do Pe. Kentenich, para compor música religiosa, para explorar o pensamento filosófico de algumas figuras relevantes, entre outras coisas. Também é possível usá-la para cruzar referências entre o pensamento do Pai e a doutrina da Igreja, para preparar conteúdos formativos nas escolas da rede, entre muitas outras possibilidades. Uma analogia que ajuda é pensar que, por 23 dólares por mês, você pode ter um assistente de pesquisa com doutorado em todas as disciplinas que acabou de chegar da Índia, que aprendeu a falar espanhol com um dicionário e que pode ajudá-lo a chegar mais rápido ao que você precisa estudar ou ao que deseja fazer, se você aprender a fornecer o contexto de maneira adequada. Digo 23 dólares e não de graça, porque usar os modelos de linguagem gratuitos não é seguro (eles usam suas informações para se treinar) e têm um nível intelectual muito inferior, têm menos capacidade de entender seu contexto pessoal, pior memória, etc.
Há alguns meses, me pediram para dar uma palestra aos Padres de Schoenstatt e outra à Arquidiocese de Santiago, justamente para explicar em que consiste essa onda da IA Generativa e como ela pode ser utilizada no exercício pastoral. E a verdade é que as possibilidades são enormes: desde preparar homilias e conteúdos formativos, até acompanhar processos de catequese, sistematizar experiências pastorais, responder a dúvidas de fé com fontes confiáveis. Um padre que atende cinco comunidades pode ampliar seu alcance sem perder profundidade. O mesmo ocorre em organizações sociais e educacionais que, tipicamente, têm muitas necessidades e poucos recursos; a IA pode ser um grande equalizador se soubermos aproveitá-la. É uma oportunidade que não podemos desperdiçar, mas que também precisamos saber cuidar.
Mas, e isso é fundamental, a IA não reza e tem vieses não evidentes. Ela não tem experiência de Deus. Não tem interioridade. Pode organizar informações sobre a fé, os dogmas, a história da Igreja, mas a fé é, antes de tudo, um encontro com Deus encarnado e um encontro da comunidade com Deus. Nenhum algoritmo substitui uma boa conversa com um diretor espiritual, uma comunidade que te acompanha, um momento de silêncio no Santuário, mas, bem utilizada, pode enriquecê-la muito.
Muitos jovens já utilizam ferramentas de IA para aprender e estudar. Que critérios você recomendaria para usá-las de forma responsável e formativa?
Há algo que quero colocar em discussão com dados concretos, porque essa conversa não pode se limitar a opiniões (que são muitas e muito diversas). Um estudo do MIT Media Lab realizado este ano monitorou, por meio de eletroencefalogramas, estudantes enquanto escreviam redações: alguns com o ChatGPT, outros sozinhos. Aqueles que usaram o ChatGPT apresentaram menor atividade cerebral, pior memória e redações que os próprios avaliadores chamaram de “sem alma”. Quanto mais usavam, mais seu desempenho se deteriorava. Mas eis o interessante: quando pegaram o grupo que havia trabalhado primeiro sozinho, com seu próprio cérebro, e depois deram acesso à IA, esse grupo apresentou maior conectividade cerebral. Ou seja, a IA usada depois de você pensar por conta própria potencializa o aprendizado. A IA usada em vez de você pensar por conta própria o destrói.
E isso é complementado por um estudo de Harvard publicado este ano na Scientific Reports, onde um tutor de IA bem projetado — que não dava respostas, mas fazia perguntas, desafiava e orientava — conseguiu que os alunos de Física aprendessem o dobro em menos tempo, em comparação com uma aula tradicional ativa. O dobro. A diferença não está na ferramenta, mas em como você a usa.
Então, três critérios concretos. Primeiro: use a IA para pensar mais, não para pensar menos. Se você a usar para que ela faça sua tarefa, você está se prejudicando, e a neurociência agora confirma isso. Se você a usar como sparring, como interrogador, como um tutor que o desafia, você está crescendo.
Segundo: sempre verifique. A IA se equivoca com muita confiança. Ela pode inventar dados, citações e até mesmo autores que não existem. Um jovem que usa a IA sem espírito crítico é mais vulnerável à desinformação do que aquele que não a usa.
Terceiro: não deixe que ela te defina. Os algoritmos aprendem do que você gosta e te dão mais do mesmo. Eles criam uma bolha confortável para você. A formação de verdade – e isso qualquer um que já passou por um processo formativo sério em Schoenstatt sabe – passa por te expor ao que te incomoda, ao que te desafia, ao que te faz crescer.
A espiritualidade cristã nos convida a cultivar a interioridade. Em um mundo hiperconectado, como podemos usar a tecnologia sem perder o silêncio interior e a relação com Deus?
Essa é a pergunta mais pessoal para mim. Trabalho com IA o dia todo, é literalmente a minha profissão. E a tentação de estar permanentemente conectado, produzindo sem parar, é real. O que aprendi – e continuo aprendendo – é que o silêncio deve ser protegido com a mesma disciplina com que se protege uma reunião importante. Ninguém cancela uma reunião com um cliente. Mas cancelamos o silêncio, a oração, o momento de não fazer nada, com uma facilidade enorme.
Acho que a espiritualidade Inaciana e Kentenichiana nos dão uma ferramenta poderosa: o exame de consciência. Refletir no final do dia: onde estive presente? Onde me deixei levar pela inércia digital? Em que momento a ferramenta me usou, em vez de eu usá-la? Não se trata de demonizar a tecnologia, seria absurdo vindo de alguém que vive disso. Trata-se de ser senhor da ferramenta e não escravo. E isso requer uma interioridade cultivada, não improvisada.
Pe. Kentenich falava em formar “homens novos para uma nova comunidade”. Diante do avanço da inteligência artificial, que tipo de pessoas e de cultura você acha que precisamos formar hoje?
Pe. Kentenich tinha uma frase que, a meu ver, expressa bem como deve ser essa nova comunidade: Viver com “a mão no pulso do tempo e o ouvido no coração de Deus”. Essa frase tem hoje uma urgência concreta que gostaria de destacar: mais da metade do dinheiro total investido em novos negócios está sendo direcionado para a inteligência artificial. Os Estados Unidos e a China estão em uma corrida frenética para ver quem chega primeiro à inteligência artificial geral, a uma IA que pense como um ser humano. Isso não é ficção científica, é geopolítica real, é economia real, está acontecendo agora. E Schoenstatt não pode ficar de fora dessa conversa. Não podemos nos dar ao luxo de observar isso de fora, com distância piedosa, enquanto o mundo se reconfigura. Isso é a “missão de 31 de maio” concretizada.
A pergunta Kentenichiana hoje é dupla: como fazemos para que essa IA nos humanize em vez de nos desumanizar? E qual é essa nova ordem social que vamos construir? Porque alguém vai construí-la; a questão é se serão apenas os engenheiros do Vale do Silício, com seus incentivos comerciais, ou se também participaremos nós, que temos uma visão do ser humano como imagem de Deus, mas que compreendemos as possibilidades que ela oferece.
O “homem novo” que Kentenich propunha não é alguém que rejeita seu tempo, mas alguém que vive em seu tempo com liberdade interior. Hoje, isso significa formar pessoas com pensamento crítico, que não aceitem um resultado só porque “a IA disse”, da mesma forma que não deveriam aceitar algo só porque “o chefe disse”. Pessoas com capacidade de vínculo real, que entendam que a eficiência não é o valor supremo. E pessoas com raízes em sua fé, em sua comunidade, em sua identidade. Porque o maior risco de um mundo hipertecnológico não é a falta de ferramentas, mas o excesso de velocidade e a falta de raízes. Precisamos de pessoas que saibam para que vivem antes de otimizar como vivem.
Se tivesse que dar um conselho àqueles que vivem sua fé e observam com certa apreensão o avanço da inteligência artificial, que atitude interior recomendaria para enfrentar essa nova era tecnológica?
Nem medo nem ingenuidade. Eu diria: curiosidade com discernimento. O medo paralisa e, além disso, é mau conselheiro; faz com que você rejeite algo que poderia estar usando para servir melhor. A ingenuidade faz com que você aceite tudo sem filtrar. O cristão é chamado a algo mais maduro: a encarar a realidade de frente, com os olhos abertos, e se perguntar: como uso isso para o bem? Onde estão os riscos reais? O que me aproxima da minha missão e o que me distrai dela?
Eu diria a vocês que estudem, que experimentem as ferramentas, que percam o medo de errar com elas. Mas que nunca percam de vista a pergunta fundamental: isso me torna mais livre ou mais dependente? Mais disponível para o outro ou mais fechado em mim mesmo? Se mantiverem essa pergunta viva, a tecnologia – qualquer tecnologia – se torna o que deve ser: um instrumento a serviço de algo maior do que ela mesma. E nós, de Schoenstatt, sabemos bem qual é esse “algo maior”.
“O ‘homem novo’ que Kentenich propunha não é alguém que rejeita seu tempo, mas alguém que vive em seu tempo com liberdade interior. Hoje, isso significa formar pessoas com pensamento crítico, que não aceitem um resultado só porque ‘a IA disse’.”
Andrés Vergara González
Fonte: Revista Vínculo, n. 400, maio de 2026
Tradução: Karen Bueno