São 5h45 da manhã em San Luis Potosí, no México. A cidade ainda dorme, não há trânsito, não há vozes, apenas aquele silêncio particular que a madrugada reserva para aqueles que decidem vivê-la. O céu ainda não consegue decidir se é noite ou dia; e, no entanto, um grupo de jovens já está de pé, com os olhos semiabertos e os pés se movendo antes mesmo que a mente lhes dê permissão, a caminho da igreja. Maio é o mês de Maria em alguns países, inclusive no México. E, na Família de Schoenstatt de San Luis Potosí, maio tem um nome próprio há anos: Missas Heroicas. Missas às 6 da manhã, todos os dias do mês, como uma oferta viva à Mãe. Mas, neste ano, maio chegou carregado de uma pergunta que ninguém queria fazer em voz alta: sem os Padres de Schoenstatt morando na cidade, quem celebraria? O costume se manteria? Ou este seria o primeiro maio em anos em que a igreja amanheceria em silêncio?
Uma tradição em perigo
Há anos, o mês de maio tem um sabor especial para a Família de Schoenstatt de San Luis Potosí. Todas as manhãs, ao amanhecer, a Igreja da Sagrada Família abre suas portas para aqueles que optaram por começar o dia de uma maneira diferente: não com o celular, não com o som do despertador, mas com Cristo. As Missas Heroicas de maio são exatamente isso: uma missa celebrada às 6 da manhã, todos os dias do mês, como um ato de amor a Maria em seu mês.
Não é fácil. Significa colocar o despertador quando ainda dói acordar. Significa abrir mão do descanso que as provas ou o trabalho já haviam reduzido na noite anterior. Significa decidir, todas as manhãs, que há algo mais importante do que o colchão.
Este ano, porém, a dificuldade era diferente. A questão não era se haveria disposição entre os jovens. A questão era mais complexa: haveria alguém para celebrar? A comunidade de Schoenstatt em San Luis Potosí não conta atualmente com sacerdotes do Movimento morando na cidade. Sem um padre que pudesse presidir a Eucaristia dia após dia, toda a tradição dependia de uma pergunta sem resposta. Havia quem duvidasse em voz baixa. Havia quem preferisse não perguntar nada ainda, caso a resposta fosse um “não”.

O “sim” que tornou isso possível
A resposta não demorou. Veio de Querétaro.
O Pe. Santiago Abella Peniche tomou conhecimento do anseio antes mesmo que se tornasse um pedido formal. E respondeu antes mesmo de terminarmos de explicar. Ele não esperou que lhe apresentássemos um plano pronto, uma lista de liturgistas confirmados, nem uma folha com os dias preenchidos. Ele respondeu ao desejo, não ao projeto. Esse é um tipo de fé que poucos praticam: acreditar no que ainda não existe porque confia naquele que quer construí-lo. E, a partir dessa confiança, ele se colocou em ação, sem pedir nada em troca.
Já em Querétaro, ele iniciou o diálogo com o pároco Pe. Alejandro García Sánchez, que acolheu a Família de Schoenstatt com uma generosidade que merece ser destacada: abriu espaço, endossou o projeto e estendeu a mão a uma juventude que pedia permissão para rezar.
Seis Ministros da Palavra, um único compromisso
Preparar a liturgia não é apenas ler um texto. Requer escolher as leituras que falem àquele dia específico, construir uma reflexão que se conecte com a vida daqueles que acordaram cedo para estar ali e sustentar o silêncio nos momentos em que o silêncio é a oração mais sincera.
Seis jovens Ministros Extraordinários da Eucaristia, pertencentes ao Santuário Maravilhas de Schoenstatt e à Paróquia Sagrada Família, assumiram a responsabilidade de celebrar todas as manhãs: Juan Pablo Velázquez Chávez, Mauricio Rodríguez Tacea, Diego Rosales Lara, Gonzalo Andrés Córdoba de Alba, Javier Soto Aranda e Rafael Aguilar Díaz de León.
Cada um chegou ao altar de uma maneira diferente. Cada um deles dedicou tempo que não sobrava, fé que às vezes também custa e uma pontualidade que, às 6 da manhã, é um tipo de virtude à parte.
21 dias sem falhar
No final de maio, o balanço foi o seguinte: 6 missas e 15 liturgias. 21 celebrações. 21 manhãs em que alguém se preparou e esteve lá às 6h para que quem chegasse encontrasse a porta aberta e o altar pronto. 21 dias amanhecendo com Jesus.
Gosto de iniciar cada liturgia com uma frase que Jesus disse e que nunca deixa de me surpreender: “Quando dois ou mais se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles”. É uma promessa sem restrições de tamanho, sem exigência de multidão. Apenas presença. E o que posso dizer com certeza, após este mês, é que essa promessa se cumpriu. Jesus esteve em cada um desses 21 encontros. Esteve no silêncio do amanhecer, antes do primeiro canto. Esteve no instante em que alguém fechou os olhos e deixou para trás o que carregava desde a noite anterior. Esteve, e permaneceu.
21 sem falhar não é um recorde para se exibir. Cada manhã foi uma pedra colocada sobre a anterior com precisão e sacrifício e, ao final de maio, havia algo construído que antes não existia: a certeza, comprovada e não apenas desejada, de que essa Família sabe se sustentar quando as condições não são perfeitas. De que a ausência do que idealmente deveria estar presente não nos paralisa, mas nos obriga a descobrir o que já somos. Essa é a revelação mais profunda deste mês de maio: não o que nos faltou, mas o que encontramos quando decidimos que a falta não seria desculpa.


A Família que disse “sim” todas as manhãs
Tudo o que foi dito acima não faz sentido algum se ninguém aparecer.
Nós, liturgistas, celebramos para alguém. E esse alguém, todas as manhãs de maio, era uma Família que escolheu estar presente. Nós os víamos chegar com os olhos ainda meio fechados, com o café que às vezes não tinham tido tempo de terminar, com a mochila do dia já carregada nos ombros. Víamos entrar em silêncio, ocupar seus lugares e deixar que a oração lhes abrisse o dia antes que o dia lhes exigisse tudo.
Não conheço os sacrifícios particulares de cada um. Não sei o que deixaram de fazer na noite anterior para poderem chegar a tempo. Não sei quantas vezes o despertador foi uma decisão de vontade antes do que de vontade própria. O que eu sei é que a presença de cada um foi o ato de fé mais real deste mês.

O que fica e o que está por vir
Rezo para que, no ano que vem, haja uma comunidade de padres morando em San Luis Potosí e que maio volte a ser, a cada dia, uma missa lotada. Mas, se isso ainda não acontecer, será uma honra celebrar novamente com cada um.
Este mês de maio nos deixou uma certeza que talvez precisássemos redescobrir: uma Família não se define pelo que lhe falta, mas por sua capacidade de permanecer unida, servir e seguir em frente quando as circunstâncias não são as ideais.
A Mãe continua formando seus filhos, continua construindo comunidade e continua nos lembrando que Deus sempre encontra uma maneira de agir quando há corações dispostos a responder. O que começou com incerteza acabou se transformando em uma experiência de confiança, entrega e Família.
Que isso fique registrado para quando alguém voltar a se perguntar se era possível: sim, era. Porque onde há amor a Cristo, confiança na Mãe e uma Família disposta a dizer sim, sempre haverá um caminho. Este mês de maio foi a prova disso. E também uma promessa de tudo o que ainda está por vir.


